sexta-feira, junho 01, 2007

Crónica III

Desligou o rádio e ficou ali, em silêncio. As torneiras gotejavam levemente. O vento assobiava nos caixilhos. Nunca se sentira tão só.

Ao canto da sala, um espelho quebrado.

“Isto… não sou eu”, pensou. A imagem reflectida no espelho era a de um velho, de longas barbas e longos cabelos brancos. O rosto não tinha forma definida, os olhos eram o vazio.

O único som que o acompanhava era o gotejar das torneiras… leve… levemente.

Atreveu-se a levantar a cortina imunda e desfiada. No passeio, em frente à janela, as pessoas caminhavam como se nada fosse. Só ele sabia que ele próprio estava ali, e ali ficaria.

E as torneiras continuavam a gotejar, quase como o choro miado do gato da lixeira. Um menino, do outro lado da rua, saltou numa poça de chuva, molhando os pés, e sorria satisfeito.

Tempo após tempo, todos passavam indiferentes ao lado da janela azul com cortinas esfarrapadas.

Naquele dia, porém, as torneiras deixaram de gotejar e cessaram o seu lamento. O velho já não vivia ali.

1 Comments:

Blogger RG said...

OHHH MYYY GOD.

3:41 p.m.  

Enviar um comentário

<< Home