Quinta-feira, Julho 03, 2008

sem título (ou a crónica da solidão construtiva)

Um daqueles longos dias...
Tomava um duche e tentava chegar com o puff bem ensaboado ao meio das costas.
A cabine era minúscula e qualquer tipo de movimento originava uma valente cotovelada nas paredes de acrílico. Depois de tentar vários ângulos, desistiu. Estava sozinho. Vivia sozinho. Ninguém em casa. E pensou: "Ora bolas, que jeito me dava alguém para me esfregar as costas..."

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

manhã

O dia cinzento, cinzento, sem vida, uma face à janela a olhar para o vazio. Lembra o mar em dias frios, este céu. A agitação da cidade é-lhe indiferente. Os dias passam, indefinidos, como aquela cor, indefinida, lembras-te? Nem azul, nem preto, nem branco... Simplesmente indefinida. Aquela face continua a colar-se ao vidro da janela, sem traços. Não existe um sorriso, o brilho nos olhos já há muito desapareceu. Permanece apenas a tristeza interminável dos dias frios. Deduz-se que se senta à janela de manhã e passa ali o dia a olhar para a rua. De tempos a tempos, segura uma pena e um pergaminho. Escreve uma palavra ou outra, sem pensar. Abre a janela para sentir o ar frio da manhã, procurando uma réstia de cheiro a mar e algas. Mas o cheiro a mar está longe e não se sente. Ou talvez esteja apenas doente e tenha o nariz entupido.

Assim como assim, escreve. E escreve “mar” e recorda-se do bater das ondas. Quem dera que chegue a Primavera para que o cinzento dê lugar às outras cores indefinidas que tanto lhe preenchem a alma. Quem dera que tudo mudasse num simples estalar de dedos.

Terça-feira, Novembro 20, 2007

seaside

Do you want to go to the seaside?
I'm not trying to say that everybody wants to go
I fell in love at the seaside
I handled my charm with time and slight of hand

Do you want to go to the seaside?
I'm not trying to say that everybody wants to go
I fell in love at the seaside
She handled her charm with time and slight of hand, and oh

But I'm just trying to love you
Any kind of way
But I find it hard to love you girl
When you're far away
Away

Do you want to go to the seaside?
I'm not trying to say that everybody wants to go
But I fell in love on the seaside
On the seaside
In the seaside

by The Kooks, Seaside (Inside In / Inside Out 2006)

Sábado, Outubro 06, 2007

alma

Entras e sorris. A alma cheia de nada. O odor da tua pele enche o espaço assim que passas a ombreira da porta. As gotas de chuva escorrem ainda pela tua face. Sentas-te a meu lado. Perguntas como estou. Respondo que bem, estou bem. Contas-me do caminho para casa, das peripécias do dia. Amo as histórias. Conto-te do meu caminho para casa. Amas as histórias. Estamos os dois sentados lado a lado, a alma numa só, cheia de nada. Pouco a pouco, o reflexo da luz do sol esvai-se da sala. A noite cai e continuamos ali, sozinhos. Conheço cada pormenor da tua expressão. Sei dizer-te se estás triste, preocupado, cansado, ou simplesmente aqui. Conheço cada sorriso teu. Gosto do teu abraço quente, do teu beijo de bom dia, do cabelo desalinhado ao acordar. Amo cada palavra, cada riso.
A minha alma está cheia de ti.

Domingo, Junho 17, 2007

Empty spaces

Empty spaces along the street, footprints and laughter all gone.

The emptiness invades me as I walk past the club towards the peer. It’s a dark, cold night. On the left, by the bridge, a group of homeless people gather around a whisky bottle. They stare at me, probably thinking I don’t belong. My clothes are not rags, compared to theirs. My hands are warm, I don’t need the whisky to warm me up inside. They keep staring at me. I hear low voices but I keep walking, faster and faster. The moment I reach the peer I look back. They are gone. There is no one there. The footprints are gone, the laughter is gone, the homeless are gone. Empty spaces, that’s all that is left behind.

I remember thinking I wish I could go back to that night, where emptiness was all I could see. Amongst the emptiness, I could still hear my heart beating. I can’t hear it anymore.

Sexta-feira, Junho 01, 2007

Crónica III

Desligou o rádio e ficou ali, em silêncio. As torneiras gotejavam levemente. O vento assobiava nos caixilhos. Nunca se sentira tão só.

Ao canto da sala, um espelho quebrado.

“Isto… não sou eu”, pensou. A imagem reflectida no espelho era a de um velho, de longas barbas e longos cabelos brancos. O rosto não tinha forma definida, os olhos eram o vazio.

O único som que o acompanhava era o gotejar das torneiras… leve… levemente.

Atreveu-se a levantar a cortina imunda e desfiada. No passeio, em frente à janela, as pessoas caminhavam como se nada fosse. Só ele sabia que ele próprio estava ali, e ali ficaria.

E as torneiras continuavam a gotejar, quase como o choro miado do gato da lixeira. Um menino, do outro lado da rua, saltou numa poça de chuva, molhando os pés, e sorria satisfeito.

Tempo após tempo, todos passavam indiferentes ao lado da janela azul com cortinas esfarrapadas.

Naquele dia, porém, as torneiras deixaram de gotejar e cessaram o seu lamento. O velho já não vivia ali.

Segunda-feira, Maio 14, 2007

Blurred pictures of the sun

I
They looked so peaceful, just like they were beautiful inside.
Inside they were black and grey and dark though.
When the sun shone over them, it was like the rain wiping off all the darkness.
From that day onwards, they always slept holding hands.

II
See when you think you need something or someone to long for? What’s the use? You’ll still be alone after all.

III
There is no one to hold hands with…

IV
Would you want to hold hands with me while sleeping?

V
I know you’re here.

VI
Here’s me.