Desligou o rádio e ficou ali, em silêncio. As torneiras gotejavam levemente. O vento assobiava nos caixilhos. Nunca se sentira tão só.
Ao canto da sala, um espelho quebrado.
“Isto… não sou eu”, pensou. A imagem reflectida no espelho era a de um velho, de longas barbas e longos cabelos brancos. O rosto não tinha forma definida, os olhos eram o vazio.
O único som que o acompanhava era o gotejar das torneiras… leve… levemente.
Atreveu-se a levantar a cortina imunda e desfiada. No passeio, em frente à janela, as pessoas caminhavam como se nada fosse. Só ele sabia que ele próprio estava ali, e ali ficaria.
E as torneiras continuavam a gotejar, quase como o choro miado do gato da lixeira. Um menino, do outro lado da rua, saltou numa poça de chuva, molhando os pés, e sorria satisfeito.
Tempo após tempo, todos passavam indiferentes ao lado da janela azul com cortinas esfarrapadas.
Naquele dia, porém, as torneiras deixaram de gotejar e cessaram o seu lamento. O velho já não vivia ali.