manhã
O dia cinzento, cinzento, sem vida, uma face à janela a olhar para o vazio. Lembra o mar em dias frios, este céu. A agitação da cidade é-lhe indiferente. Os dias passam, indefinidos, como aquela cor, indefinida, lembras-te? Nem azul, nem preto, nem branco... Simplesmente indefinida. Aquela face continua a colar-se ao vidro da janela, sem traços. Não existe um sorriso, o brilho nos olhos já há muito desapareceu. Permanece apenas a tristeza interminável dos dias frios. Deduz-se que se senta à janela de manhã e passa ali o dia a olhar para a rua. De tempos a tempos, segura uma pena e um pergaminho. Escreve uma palavra ou outra, sem pensar. Abre a janela para sentir o ar frio da manhã, procurando uma réstia de cheiro a mar e algas. Mas o cheiro a mar está longe e não se sente. Ou talvez esteja apenas doente e tenha o nariz entupido.
Assim como assim, escreve. E escreve “mar” e recorda-se do bater das ondas. Quem dera que chegue a Primavera para que o cinzento dê lugar às outras cores indefinidas que tanto lhe preenchem a alma. Quem dera que tudo mudasse num simples estalar de dedos.

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